COP30: Avanços, Contradições e o Estado Real da Ação Climática

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A Cimeira do Clima COP30 trouxe, como sempre, avanços diplomáticos, frustrações previsíveis e um debate cada vez mais urgente sobre o futuro climático do planeta. Embora tenha sido alcançado um acordo de continuidade rumo ao cumprimento do Acordo de Paris, a realidade é que o mundo continua sem um roteiro verdadeiramente credível para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis.

A União Europeia voltou a assumir um papel determinante nas negociações, pressionando por metas mais ambiciosas e por compromissos vinculativos. Apesar da resistência de vários países dependentes de petróleo e gás, a UE conseguiu ajudar a desbloquear o acordo final.

Politicamente, a boa notícia é o comprometimento da China com a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Surgiu como um ator cada vez mais pragmático e tecnológico: não apenas prometendo, mas também mostrando produtos (renováveis, tecnologia, veículos elétricos…). A China quer consolidar sua posição como fornecedor global de soluções verdes. Ao mesmo tempo, sustenta argumentos sobre responsabilidades históricas e desigualdades no clima, insistindo que os países mais ricos suportem mais o peso da transição.

Já os EUA, com a sua ausência oficial, dão um sinal preocupante para os restantes atores: se uma superpotência histórica dos gases de efeito estufa se retira ou desacelera o engajamento institucional, isso pode enfraquecer a ambição global.

Das negociações, existe uma pergunta que sobressai: O objetivo de limitar o aumento da temperatura média global a 1,5ºC até 2100 continua formalmente vivo, mas será realista?

Se praticamente todos os modelos matemáticos indiciam que estamos muito próximos de atingir 1,5º de aumento da temperatura média global, porquê manter este objetivo? A questão não está na linearidade do número, mas sim no facto de que este aumento pode esconder variações locais muito superiores. Há regiões do planeta em que, mesmo que a média global suba apenas 1,5ºC, a temperatura local pode aumentar 3 ou 4ºC, com consequências catastróficas para as populações, fauna e flora.

Os impactos desde a assinatura do Acordo de Paris têm confirmado as previsões científicas e verificam-se no nosso “laboratório vivo”:

Em Portugal:

  • Incêndios de verão cada vez mais severos;
  • Temporais recentes, incluem chuvas extremas e tornados;
  • Impactos profundos na agricultura, reservas hídricas e infraestruturas.

Na Europa:

  • Enchentes devastadoras na Europa Central;
  • Secas prolongadas no sul do continente.

No mundo:

  • Danos irreversíveis nos ecossistemas marinhos, incluindo o colapso dos corais;
  • Comunidades e tribos indígenas da América do Sul são severamente afetadas pela perda de território, pela desflorestação acelerada e pela alteração dos padrões climáticos que comprometem modos de vida tradicionais;
  • Países inteiros em risco de desaparecer, como Tuvalu, Maldivas, Ilhas Marshall, Kiribati e Nauru, devido à subida do nível do mar;
  • No Irão, uma seca severa já dura há 8 anos, levando o governo a ponderar a evacuação parcial da população de Teerão.

As alterações climáticas não provocam apenas ondas de calor – estão associadas a eventos extremos de múltiplas naturezas com impactos ambientais e socias.

Visões catastróficas não ajudaram a credibilizar a meta de redução de 1,5ºC até 2100 – a vida na Terra não irá acabar de um dia para o outro. No entanto, o desafio é extremamente sério e já nos afeta, exigindo adaptação contínua enquanto a Terra procura atingir um novo equilíbrio: migrações, instabilidade política e social, injustiça climática entre outros impactos.

Sem um plano credível para reduzir a dependência de fósseis, muitas metas arriscam tornar-se meras declarações de intenção.

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Autor do blog Pedro Moço