A recente estimativa de que o consumo de eletricidade em Portugal gerou cerca de um milhão de toneladas de CO₂ a mais em 2025 constitui um sinal de alerta que merece uma reflexão séria e estratégica.
Segundo dados da associação ambiental ZERO, o consumo elétrico atingiu um novo máximo histórico de 53,1 TWh em 2025, cerca de 3,2% acima de 2024, mas esse aumento não foi acompanhado por um crescimento equivalente da produção a partir de fontes renováveis.
O principal efeito foi um aumento da produção a partir de centrais térmicas a gás natural para colmatar o desfasamento entre procura e produção renovável, com as emissões de CO₂ resultantes a ascender a cerca de um milhão de toneladas adicionais face ao ano anterior.
Importa compreender que não se trata apenas de um número, estas emissões adicionais têm impacto direto nos compromissos de Portugal no âmbito do Acordo de Paris, dos objetivos da União Europeia de redução de gases de efeito de estufa e na estratégia nacional de descarbonização.
É evidente que o crescimento do consumo elétrico é, em grande medida, um reflexo de tendências estruturais: eletrificação dos transportes, digitalização da economia e aumento da procura doméstica e empresarial. Contudo, essa tendência, se não for acompanhada por uma transformação profunda da matriz de geração de energia, cria riscos climáticos e económicos, dado que:
- Renováveis estagnaram face ao consumo: apesar de terem mantido um nível absoluto elevado, em 2025 a percentagem de renováveis no consumo total caiu de cerca de 70% para 68%.
- A dependência de combustíveis fósseis persistiu: sobretudo gás natural, para suprir o défice de produção limpa.
Portugal tem potencial significativo para gerar energia limpa, aliás, em anos recentes, as renováveis chegaram a ultrapassar 75% da produção em determinados meses e têm batido máximos históricos de integração no sistema elétrico. O problema não é a falta de recurso ao sol, ao vento ou à água, mas sim a rapidez com que essas capacidades estão a ser implementadas e integradas de forma resiliente e eficiente.
A nível estratégico, apesar de iniciativas como o Programa E-Lar do Fundo Ambiental, que visa promover a eletrificação de consumos e apoiar famílias na substituição de equipamentos a gás por soluções elétricas mais eficientes, é difícil não questionar a visão estratégica subjacente às políticas públicas recentes.
O E-Lar é útil para a eletrificação pontual de consumos em habitação, mas revela-se redutor ao nível das medidas propostas, ao focar-se exclusivamente na substituição de aparelhos como placas de cozinha e termoacumuladores elétricos (pouco eficientes) sem integrar intervenções estruturais indispensáveis para melhorar a eficiência e a envolvente dos edifícios, como isolamento térmico, substituição de caixilharias, sistemas solares térmicos, fotovoltaicos ou bombas de calor de alto desempenho – instrumentos que têm comprovado impacto na descarbonização e na redução de consumos. Além disso, a transição encerrou, com relativa rapidez, programas mais abrangentes da Componente C13 – Eficiência Energética em Edifícios, que apoiavam intervenções globais na envolvente e nos sistemas técnicos de construções residenciais e de serviços sem que haja um aviso compensatório equivalente para edifícios terciários, deixando um setor empresarial importante sem mecanismos de apoio claramente definidos.
De igual modo, no novo calendário de avisos do Portugal 2030, não há referência sólida, pelo menos até ao momento, à operacionalização efetiva do programa “Descarbonização das Empresas”, apesar de terem sido abertas fases de registo de pedido de auxílio no início de 2025 para futuros concursos dessa tipologia de apoio. Este vazio prático traduz-se numa incerteza que contrasta com a urgência que a descarbonização empresarial exige.
Em suma, a verdadeira discussão não é sobre o aumento do consumo em si mas como conseguimos que esse crescimento seja servido por eletricidade cada vez mais limpa, segura e inovadora.
Alguns dos pontos estratégicos que exigem ação concertada são:
- Acelerar a expansão de renováveis: simplificando procedimentos administrativos e removendo entraves que retardam a instalação de parques solares e eólicos descentralizados.
- Fortalecer infraestruturas de rede e interligações regionais para permitir uma integração mais eficiente da produção renovável distribuída.
- Potenciar mecanismos de flexibilidade e armazenamento que permitam absorver melhor a variabilidade das fontes renováveis.
- Planeamento energético integrado que alinhe políticas climáticas com objetivos de segurança de abastecimento e competitividade económica.
Se Portugal quiser genuinamente consolidar o seu papel como um dos países líderes da União Europeia na transição para um sistema energético descarbonizado, este é um momento de reafirmar e intensificar a política pública e o investimento privado nesta direção.
Conheça as soluções estratégicas e operacionais da Advanced Way que ajudam a transformar ambição em ação.